Roberto Pessoa
Lavagem do Bonfim: a festa onde fé católica e candomblé se encontram
Festas e Tradições

Lavagem do Bonfim: a festa onde fé católica e candomblé se encontram

9 de janeiro de 2025Bonfimsincretismofestas popularesSalvador

A segunda quinta-feira de janeiro

Todo ano, na segunda quinta-feira de janeiro, Salvador para. Milhares de baianas vestidas de branco percorrem os 8 quilômetros que separam a Igreja da Conceição da Praia da Colina Sagrada do Bonfim, carregando potes de cerâmica cheios de água de cheiro — uma mistura de alfazema, lavanda e outras ervas aromáticas.

Ao chegarem às escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, lavam os degraus em um ritual que mistura devoção católica e tradição do candomblé. É a Lavagem do Bonfim, uma das festas mais antigas e emblemáticas do Brasil.

Origens coloniais

A tradição remonta ao século XVIII, quando escravizados que serviam na igreja limpavam o templo como parte de suas obrigações. Com o tempo, o gesto de lavar se transformou em ritual religioso, incorporando elementos das religiões africanas trazidas pelos escravizados.

A água de cheiro, por exemplo, não é simples perfume — no candomblé, as águas aromáticas são usadas em rituais de purificação e benção. As baianas de branco representam as filhas de santo dos terreiros, vestidas com as roupas rituais do candomblé que se tornaram símbolo da Bahia.

A fitinha do Bonfim

Nenhum símbolo é mais associado a Salvador do que a fitinha do Bonfim. Amarrada no pulso com três nós — cada nó um pedido — a fita deve cair naturalmente para que os desejos se realizem. Roberto Pessoa explica que a tradição das fitas tem origem no costume português das fitas votivas, mas ganhou na Bahia uma dimensão completamente nova ao se fundir com práticas de amarração do candomblé.

O sincretismo em ação

A Lavagem do Bonfim é talvez o melhor exemplo do sincretismo religioso baiano em ação. Senhor do Bonfim é associado a Oxalá, o maior orixá do candomblé. A festa acontece em janeiro, mês dedicado a Oxalá no calendário religioso afro-brasileiro. As baianas cantam cantigas que misturam louvores católicos e saudações aos orixás.

Este sincretismo não foi acidental — foi uma estratégia de sobrevivência. Os africanos escravizados, proibidos de praticar suas religiões, encontraram nos santos católicos correspondências com seus orixás, preservando suas tradições sob um verniz católico.

A festa hoje

A Lavagem do Bonfim é hoje Patrimônio Imaterial da Bahia e atrai centenas de milhares de pessoas todos os anos. O cortejo é acompanhado por trios elétricos, blocos afro e caravanas de todo o Brasil e do mundo.

Mas além da festa, a Lavagem é um momento de reflexão sobre a identidade baiana — uma identidade construída na fusão de culturas, na resistência e na fé que atravessa séculos.

Assista ao vídeo

Roberto Pessoa explica em detalhes a história da Lavagem do Bonfim, as tradições, os símbolos e o que torna esta festa única no mundo.