Como a arquitetura italiana transformou Salvador?
Salvador parece contar sua história nas fachadas, nos monumentos e nas igrejas. Ao caminhar pelo Campo Grande, pela Barra ou pelo Corredor da Vitória, é possível perceber uma cidade formada por muitas camadas: a herança portuguesa, o barroco religioso, o neoclassicismo, o ecletismo europeu e as soluções criadas pela própria sociedade baiana.
Em uma conversa sobre história e arquitetura, Roberto Pessoa mostra como artistas italianos chegaram à Bahia para realizar trabalhos específicos e acabaram deixando marcas permanentes na paisagem urbana. Alguns vieram para uma obra e permaneceram na cidade. Outros foram contratados por comerciantes e famílias que desejavam modernizar suas residências e palacetes.
Essa presença estrangeira não substituiu a identidade de Salvador. Pelo contrário: foi incorporada a uma cidade já miscigenada, onde referências europeias convivem com tradições africanas, indígenas e luso-brasileiras.
O ecletismo arquitetônico e o ciclo do cacau
A influência italiana e europeia tornou-se especialmente visível no período de transformação econômica e urbana vivido por Salvador entre o final do século XIX e o início do século XX. Depois de ter sido a capital da América Portuguesa, a cidade enfrentou mudanças econômicas importantes, agravadas pela transferência da capital para o Rio de Janeiro, em 1763.
Ainda assim, Salvador continuava sendo um centro comercial e cultural relevante. O crescimento de atividades ligadas ao cacau, especialmente no sul da Bahia, ajudou a movimentar fortunas e estimulou investimentos em casas, palacetes, edifícios públicos e espaços de representação.
É nesse contexto que o ecletismo ganha força. O estilo reunia referências de diferentes períodos e tradições em uma mesma construção. Uma fachada podia apresentar colunas clássicas, elementos neogóticos, ornamentos inspirados em repertórios franceses e detalhes decorativos de origem italiana.
Por isso, muitas edificações parecem tão ornamentadas. O ecletismo não era simplesmente uma “salada” de estilos, mas uma escolha estética ligada ao desejo de demonstrar modernidade, prestígio e conexão com a cultura europeia. Ele também conviveu com o modernismo, como mostram a comparação entre o Fórum Rui Barbosa e o Teatro Castro Alves, construções de linguagens arquitetônicas bastante diferentes.
Monumentos, palacetes e o embelezamento urbano de Salvador
Um dos nomes mais importantes dessa história é Pasquale Tirico. Contratado inicialmente para trabalhar na reforma da Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, após um incêndio, o escultor acabou permanecendo na Bahia. Ao longo de sua trajetória, produziu mais de trinta monumentos e passou a ser lembrado como um dos grandes responsáveis pelo embelezamento de Salvador.
Entre suas obras estão o Cristo da Barra, a estátua de Castro Alves e o monumento ao Barão do Rio Branco. Essas esculturas não são apenas elementos decorativos: elas ajudam a construir a memória pública da cidade, associando determinados lugares a personagens e acontecimentos da história brasileira.
A influência italiana também aparece em intervenções urbanas e em projetos ligados a comerciantes como Bernardo Martins Catarino. A construção de palacetes e residências sofisticadas estimulou outras famílias a buscar soluções semelhantes para seus imóveis.
No Campo Grande, na Barra e no Corredor da Vitória, essa transformação pode ser percebida na escala das avenidas, nos jardins, na iluminação e nos edifícios voltados para uma vida urbana mais burguesa. Já áreas como Ribeira, Itapajipe e Penha apresentavam uma combinação diferente entre espaços de lazer, moradias populares e atividades de trabalho.
O resultado foi uma Salvador múltipla, com bairros que expressavam diferentes modos de viver e diferentes relações com a modernização.
Reformas urbanas, higienismo e o Plano Haussmann
A remodelação de Salvador também foi influenciada pelas reformas realizadas em Paris por Haussmann e pelas intervenções do prefeito Pereira Passos no Rio de Janeiro. Na Bahia, José Joaquim Seabra trouxe referências europeias para um projeto de modernização que pretendia reorganizar a cidade e aproximá-la dos padrões urbanos considerados modernos naquele período.
Esse processo esteve ligado ao higienismo, uma concepção que defendia ruas mais largas, melhor circulação, iluminação e controle das condições sanitárias. A modernização, porém, teve custos: antigas ruas, casas e construções foram demolidas ou alteradas.
Partes da Avenida Sete foram abertas nesse contexto, e áreas próximas ao Campo Grande passaram por mudanças profundas. A cidade ganhou novos eixos e novas perspectivas, mas também perdeu fragmentos importantes de sua paisagem histórica.
O contraste é evidente quando se observa o Pelourinho. Seus quarteirões compactos, com casas alinhadas e muito próximas umas das outras, remetem à tradição urbana portuguesa e à formação colonial de Salvador. Ao mesmo tempo, os bairros reformados expressam o desejo republicano de criar uma cidade mais aberta, higiênica e monumental.
Essa tensão entre preservação e modernização continua presente em Salvador. O patrimônio não é apenas o que sobreviveu intacto, mas também aquilo que permite compreender as escolhas, os conflitos e as perdas que moldaram a cidade.
Conheça esses lugares na prática
Uma caminhada pelo patrimônio histórico de Salvador permite observar essa mistura de estilos diretamente:
- Campo Grande e o Monumento da Independência;
- Barra e o Cristo produzido por Pasquale Tirico;
- Corredor da Vitória e seus palacetes;
- Terreiro de Jesus, a Faculdade de Medicina e a Catedral Basílica;
- Igreja de São Francisco e Igreja do Rosário dos Pretos;
- Palácio Rio Branco e a região da Praça Municipal;
- Fórum Rui Barbosa e Teatro Castro Alves;
- Palacete das Artes, na Graça;
- Casa de Itália e outros espaços ligados à presença italiana na cidade.
Para interpretar esses lugares com contexto histórico, participe do City Tour Histórico de Salvador ou conheça o roteiro de Patrimônio Religioso. Cada fachada, praça ou monumento pode revelar uma etapa diferente da formação de Salvador.
A miscigenação de estilos que define a cidade
A arquitetura de Salvador não pode ser explicada por uma única origem. O barroco foi fundamental para a construção do patrimônio sacro, especialmente em igrejas como São Francisco, na Catedral Basílica e no Rosário dos Pretos. A tradição portuguesa organizou ruas, praças e sobrados do período colonial. Mais tarde, italianos, ingleses e outros europeus participaram de obras, esculturas e reformas.
Essa convivência aparece também em lugares como o Cemitério dos Ingleses, o Mosteiro de São Bento, a Igreja da Graça, a Igreja do Bonfim e o Solar Ferrão. Cada espaço tem uma linguagem própria, mas todos participam de uma mesma paisagem cultural.
Até mesmo as transformações modernas, representadas pelo Teatro Castro Alves e por novos equipamentos urbanos, fazem parte dessa história. Salvador não é um museu parado no tempo: é uma cidade em permanente negociação entre memória, uso cotidiano e preservação.
O que Roberto Pessoa ensina sobre a arquitetura histórica de Salvador
Com mais de 45 anos de atuação como historiador e guia de turismo, Roberto Pessoa ensina que visitar Salvador é muito mais do que reconhecer monumentos famosos. É preciso observar as relações entre economia, política, arte, religião e vida urbana.
Sua leitura ajuda a compreender por que um escultor italiano como Pasquale Tirico permaneceu na Bahia, como o ciclo do cacau influenciou o gosto arquitetônico e por que reformas inspiradas em Paris modificaram ruas inteiras da cidade.
Para Roberto, o patrimônio arquitetônico é também uma forma de memória coletiva. Preservar igrejas, palacetes, esculturas e ruas significa manter abertas as possibilidades de compreender quem construiu Salvador e como diferentes culturas participaram dessa construção.
Perguntas frequentes sobre a arquitetura italiana em Salvador
Qual foi a influência italiana na arquitetura de Salvador?
Artistas e profissionais italianos participaram de esculturas, reformas e construções que marcaram Salvador. Pasquale Tirico, por exemplo, produziu monumentos como o Cristo da Barra, a estátua de Castro Alves e a do Barão do Rio Branco.
O que é o ecletismo arquitetônico presente em Salvador?
O ecletismo combina referências de diferentes estilos em uma mesma construção, como elementos neoclássicos, neogóticos e outras influências decorativas. Em Salvador, ele ganhou força durante as transformações urbanas e econômicas do início do século XX.
Quais lugares de Salvador mostram essa mistura de estilos?
O Campo Grande, o Corredor da Vitória, a Barra, o Palácio Rio Branco, o Fórum Rui Barbosa e diversos palacetes são exemplos de espaços onde a arquitetura de Salvador revela influências portuguesas, italianas e europeias.
Para transformar essa leitura em experiência, Roberto Pessoa está disponível para tours privados em Salvador.
Perguntas frequentes
- Qual foi a influência italiana na arquitetura de Salvador?
- Artistas e profissionais italianos participaram de esculturas, reformas e construções que marcaram Salvador. Pasquale Tirico, por exemplo, produziu monumentos como o Cristo da Barra, a estátua de Castro Alves e a do Barão do Rio Branco.
- O que é o ecletismo arquitetônico presente em Salvador?
- O ecletismo combina referências de diferentes estilos em uma mesma construção, como elementos neoclássicos, neogóticos e outras influências decorativas. Em Salvador, ele ganhou força durante as transformações urbanas e econômicas do início do século XX.
- Quais lugares de Salvador mostram essa mistura de estilos?
- O Campo Grande, o Corredor da Vitória, a Barra, o Palácio Rio Branco, o Fórum Rui Barbosa e diversos palacetes são exemplos de espaços onde a arquitetura de Salvador revela influências portuguesas, italianas e europeias.
