Roberto Pessoa
O que os nomes dos bairros revelam sobre a história de Salvador
Curiosidades

O que os nomes dos bairros revelam sobre a história de Salvador

15 de março de 2025toponímiabairrostupietimologiaSalvador

Cada nome conta uma história

Você já se perguntou por que Itapuã se chama Itapuã? Ou de onde vem o nome Pituba? Por que existe um bairro chamado Liberdade em Salvador? Roberto Pessoa dedica boa parte de seus estudos à toponímia — a ciência dos nomes de lugares — e revela que os nomes dos bairros de Salvador são verdadeiros documentos históricos.

Nomes do tupi: a marca indígena

Antes dos portugueses, os Tupinambás já habitavam a região de Salvador e deram nome a muitos acidentes geográficos que depois se tornaram bairros:

  • Itapuã — "ita" (pedra) + "puã" (erguida). A pedra erguida que ficava na praia e servia de referência para os navegantes.
  • Pituba — "pitu" (camarão) + "ba" (lugar). O lugar dos camarões.
  • Pituaçu — "pitu" (camarão) + "açu" (grande). O camarão grande.
  • Imbuí — vem de "emboí" (rio das cobras), referência aos rios da região.
  • Cabula — possivelmente do banto "kabula", remetendo aos quilombos que existiram ali.

Nomes portugueses: santos e fazendas

Os colonizadores batizaram muitos lugares com nomes de santos e de suas propriedades:

  • Federação — era o Engenho Velho da Federação, uma das fazendas mais antigas de Salvador.
  • Santo Antônio Além do Carmo — literalmente, o bairro de Santo Antônio que fica além (depois) do Convento do Carmo.
  • Lapinha — referência a uma gruta (lapa) onde se encontrou uma imagem sagrada.
  • Canela — o bairro recebia navios carregados de especiarias, incluindo canela.

Nomes africanos: a marca da resistência

Algumas toponímias remetem à presença africana:

  • Cabula — associado a quilombos urbanos de população banto.
  • Tororó — possivelmente do iorubá, associado às águas e aos orixás.
  • Liberdade — batizado em homenagem à luta pela liberdade dos escravizados, hoje o maior bairro negro do Brasil.

Nomes que contam a transformação urbana

Outros bairros ganharam nomes que refletem mudanças políticas e sociais:

  • Campo da Pólvora — onde ficava o depósito de pólvora da cidade colonial.
  • Castelo Branco — conjunto habitacional da ditadura militar, nomeado em homenagem ao primeiro presidente do regime.
  • Cajazeiras — referência às árvores de cajá que cobriam a região antes do maior conjunto habitacional da América Latina.

Um mapa vivo da história

Roberto Pessoa mostra que caminhar por Salvador é caminhar por um mapa vivo da história brasileira. Os nomes tupi revelam a presença indígena apagada; os nomes portugueses marcam o poder colonial; os nomes africanos lembram a resistência dos escravizados. Juntos, eles formam a identidade complexa e fascinante de Salvador.