Cada nome conta uma história
Você já se perguntou por que Itapuã se chama Itapuã? Ou de onde vem o nome Pituba? Por que existe um bairro chamado Liberdade em Salvador? Roberto Pessoa dedica boa parte de seus estudos à toponímia — a ciência dos nomes de lugares — e revela que os nomes dos bairros de Salvador são verdadeiros documentos históricos.
Nomes do tupi: a marca indígena
Antes dos portugueses, os Tupinambás já habitavam a região de Salvador e deram nome a muitos acidentes geográficos que depois se tornaram bairros:
- Itapuã — "ita" (pedra) + "puã" (erguida). A pedra erguida que ficava na praia e servia de referência para os navegantes.
- Pituba — "pitu" (camarão) + "ba" (lugar). O lugar dos camarões.
- Pituaçu — "pitu" (camarão) + "açu" (grande). O camarão grande.
- Imbuí — vem de "emboí" (rio das cobras), referência aos rios da região.
- Cabula — possivelmente do banto "kabula", remetendo aos quilombos que existiram ali.
Nomes portugueses: santos e fazendas
Os colonizadores batizaram muitos lugares com nomes de santos e de suas propriedades:
- Federação — era o Engenho Velho da Federação, uma das fazendas mais antigas de Salvador.
- Santo Antônio Além do Carmo — literalmente, o bairro de Santo Antônio que fica além (depois) do Convento do Carmo.
- Lapinha — referência a uma gruta (lapa) onde se encontrou uma imagem sagrada.
- Canela — o bairro recebia navios carregados de especiarias, incluindo canela.
Nomes africanos: a marca da resistência
Algumas toponímias remetem à presença africana:
- Cabula — associado a quilombos urbanos de população banto.
- Tororó — possivelmente do iorubá, associado às águas e aos orixás.
- Liberdade — batizado em homenagem à luta pela liberdade dos escravizados, hoje o maior bairro negro do Brasil.
Nomes que contam a transformação urbana
Outros bairros ganharam nomes que refletem mudanças políticas e sociais:
- Campo da Pólvora — onde ficava o depósito de pólvora da cidade colonial.
- Castelo Branco — conjunto habitacional da ditadura militar, nomeado em homenagem ao primeiro presidente do regime.
- Cajazeiras — referência às árvores de cajá que cobriam a região antes do maior conjunto habitacional da América Latina.
Um mapa vivo da história
Roberto Pessoa mostra que caminhar por Salvador é caminhar por um mapa vivo da história brasileira. Os nomes tupi revelam a presença indígena apagada; os nomes portugueses marcam o poder colonial; os nomes africanos lembram a resistência dos escravizados. Juntos, eles formam a identidade complexa e fascinante de Salvador.
