Roberto Pessoa
Ribeira: história, memória e identidade em Salvador
História e Cultura

Ribeira: história, memória e identidade em Salvador

11 de outubro de 2026RibeiraItapajipehidroportoturismo cultural

Ribeira: onde história, memória e identidade encontram o mar

Há bairros que se explicam pelos monumentos. A Ribeira, em Salvador, precisa ser compreendida também pelo cheiro da maré, pelo movimento das embarcações, pelas conversas nas praças e pela memória de quem nasceu ou viveu ali. Em uma conversa com Moisés Cafezeiro, morador profundamente ligado ao bairro, o historiador e guia Roberto Pessoa percorre essas camadas de tempo e pertencimento.

Localizada em uma península abraçada pela Baía de Todos os Santos, a Ribeira reúne paisagem, navegação, educação, religiosidade e vida comunitária. Caminhar por suas ruas é observar como a geografia moldou a identidade de Salvador.

Itapajipe e a Ribeira: a geografia que virou identidade

Antes de ser conhecida simplesmente como Ribeira, a região era associada a Itapajipe. A palavra aparece na história local como uma referência indígena ao território e às suas águas. Já o nome Ribeira está ligado à relação do bairro com o mar, os rios, os portos e as atividades de navegação.

A posição geográfica foi decisiva para o desenvolvimento da área. A península se estende entre a Enseada dos Tainheiros, a Praia do Bogari, a Penha e o entorno de Monte Serrat. Por isso, a Ribeira sempre teve uma relação direta com pescadores, tainheiros, remadores e trabalhadores que tiravam seu sustento da maré.

No período colonial, a área fazia parte da expansão de Salvador para além do núcleo inicial fundado em 1549. Com o passar dos séculos, suas águas passaram a abrigar embarcações e atividades ligadas ao reparo naval. A Ribeira não era apenas um lugar de passagem: era um território de trabalho, convivência e permanência.

Essa vocação marítima também aparece nas tradições do bairro. As regatas dominicais, a prática do remo e a presença de marinas mantêm viva uma relação antiga com a Baía de Todos os Santos. O mar, na Ribeira, é cenário e sustento, mas também é uma forma de memória.

Do hidroporto às igrejas: lugares concretos da Ribeira

Um dos capítulos menos conhecidos da história local é a existência do hidroporto da Ribeira. Em 1922, a região recebeu o primeiro avião a realizar uma travessia aérea transatlântica, conduzido pelos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral. O episódio aproximou Salvador de uma nova era da navegação e da aviação.

O hidroporto continuou associado à paisagem do bairro durante as décadas seguintes. Em 1934, novas estruturas foram construídas para atender à atividade, até que, em 1943, o aeroporto terrestre passou a desempenhar esse papel. Mesmo assim, a memória da aviação permanece ligada às águas da Ribeira.

A paisagem também é marcada por importantes construções religiosas e militares. A Igreja de Nossa Senhora da Penha, cuja configuração atual remonta ao século XVIII, domina a área próxima à Marina da Penha. Mais adiante, a Igreja e o Forte de Monte Serrat formam um dos conjuntos mais expressivos da Cidade Baixa. Da Ponta de Humaitá, a vista para a Baía de Todos os Santos revela por que esse trecho de Salvador é tão associado ao bucolismo e ao pôr do sol.

As praças e largos completam essa experiência. O Largo do Papagaio, a Praça da Madragoa e a Praça do Conselho de Sabuca são espaços de circulação e convivência, embora também expressem os desafios de conservação do patrimônio cotidiano. Nem toda memória está protegida por uma placa ou por um edifício restaurado. Muitas vezes, ela sobrevive na maneira como os moradores nomeiam os lugares e contam suas histórias.

Educação, cultura e vida comunitária

Entre as décadas de 1930 e 1950, a Ribeira também se destacou pela qualidade de suas instituições educacionais. O Colégio Santa Bernadette, o Colégio João Florêncio Gomes e outras escolas atraíam professores e estudantes, ajudando a formar uma comunidade intelectual e culturalmente ativa.

O antigo Colégio da Bahia, associado ao edifício que hoje abriga o Museu do Sorvete, aparece nessa memória educacional. A presença dessas instituições mostra que a Ribeira não pode ser reduzida à imagem de um bairro litorâneo. Durante boa parte do século XX, ela foi também um polo de formação, encontro e circulação de ideias.

A vida comunitária se expressava ainda na relação com a maré, na pesca artesanal, nas festas, nas regatas e na culinária. O cozido tradicional da chamada segunda-feira gorda é uma dessas práticas que aproximam comida, conversa e pertencimento. Em Salvador, gastronomia regional também é patrimônio: uma receita repetida por gerações pode contar tanto sobre um bairro quanto uma construção histórica.

Outro símbolo afetivo é a Sorveteria da Ribeira, fundada em 1931 por Mario Tosta. O local se tornou uma referência para moradores e visitantes, associado aos passeios pela orla e à experiência de contemplar o pôr do sol. O sorvete, nesse contexto, não é apenas uma atração gastronômica: faz parte da lembrança de muitas gerações.

Conheça esses lugares na prática

Uma visita histórica à Ribeira pode começar pela Igreja de Nossa Senhora da Penha e seguir até a Marina da Penha, passando pela Praia do Bogari e pela Enseada dos Tainheiros. Depois, o roteiro pode incluir o Forte de Monte Serrat, a Ponta de Humaitá, a raia de remo e a Sorveteria da Ribeira.

Para compreender melhor as festas, os hábitos e as tradições que dão vida a Salvador, conheça o tour Festas e Tradições. Já o tour Bairros de Salvador ajuda a perceber como a Ribeira se conecta ao Bonfim, à Penha, à Calçada, ao Lobato e a outros territórios da Cidade Baixa.

O que Roberto Pessoa ensina sobre a Ribeira

Com mais de 45 anos de atuação como historiador e guia de turismo, Roberto Pessoa ensina que conhecer um bairro é muito mais do que listar datas e monumentos. É preciso observar a paisagem, ouvir os moradores e compreender as relações entre território, trabalho e memória.

Na Ribeira, essa abordagem revela um bairro formado por muitas camadas: o antigo porto de reparo de embarcações, o hidroporto, as escolas, as igrejas, o remo, a pesca, as praças, a comida e as lembranças de quem construiu sua vida junto à Baía de Todos os Santos. A história se torna mais completa quando inclui tanto personagens conhecidos quanto as vozes anônimas da comunidade.

Perguntas frequentes sobre a Ribeira em Salvador

Por que a Ribeira é chamada de península?

A Ribeira ocupa uma área cercada pelas águas da Baía de Todos os Santos, com destaque para a Enseada dos Tainheiros, a Praia do Bogari e a região da Penha. Essa posição geográfica influencia sua paisagem, sua história e suas atividades tradicionais.

Qual é a relação da Ribeira com a aviação?

A Ribeira teve um hidroporto e recebeu, em 1922, o primeiro avião a realizar uma travessia aérea transatlântica, pilotado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A atividade continuou associada ao bairro até a consolidação do aeroporto terrestre, em 1943.

O que fazer na Ribeira, em Salvador?

É possível conhecer igrejas, fortes, praças, marinas, a raia de remo, a Sorveteria da Ribeira e paisagens marcadas pelo pôr do sol e pela Baía de Todos os Santos. O passeio fica ainda mais rico quando inclui as histórias dos moradores e das tradições locais.

Para transformar essa leitura em experiência, Roberto Pessoa está disponível para tours privados em Salvador.

Perguntas frequentes

Por que a Ribeira é chamada de península?
A Ribeira ocupa uma área cercada pelas águas da Baía de Todos os Santos, com destaque para a Enseada dos Tainheiros, a Praia do Bogari e a região da Penha.
Qual é a relação da Ribeira com a aviação?
A Ribeira teve um hidroporto e recebeu, em 1922, o primeiro avião a realizar uma travessia aérea transatlântica, pilotado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
O que fazer na Ribeira, em Salvador?
É possível conhecer igrejas, fortes, praças, marinas, a raia de remo, a Sorveteria da Ribeira e paisagens marcadas pelo pôr do sol e pela Baía de Todos os Santos.