Roberto Pessoa
Carnaval de Salvador: do entrudo português ao trio elétrico
Festas e Tradições

Carnaval de Salvador: do entrudo português ao trio elétrico

15 de fevereiro de 2025Carnavaltrio elétricoblocos afroSalvador

Antes do trio elétrico

O Carnaval de Salvador nem sempre foi a explosão de música e cores que conhecemos hoje. Nos tempos coloniais, a festa era o entrudo — uma brincadeira violenta de origem portuguesa em que as pessoas se jogavam água suja, farinha e até ovos podres. Era tão desagradável que foi proibido várias vezes pelas autoridades.

No século XIX, surgiram os primeiros clubes carnavalescos e corsos — desfiles de carros enfeitados pelas ruas da cidade. A elite branca celebrava nos salões, enquanto o povo festejava nas ruas com blocos de mascarados.

A revolução de Dodô e Osmar

Em 1950, Adolfo Nascimento (Dodô) e Osmar Macêdo fizeram algo que mudaria para sempre o Carnaval brasileiro: instalaram instrumentos elétricos em cima de uma fobica (um Ford 1929) e saíram pelas ruas tocando frevo. Nascia o trio elétrico.

Roberto Pessoa conta como essa invenção baiana transformou não apenas o Carnaval de Salvador, mas toda a indústria musical brasileira. Os pequenos carros deram lugar a caminhões enormes com sistemas de som potentes, e o Carnaval de rua de Salvador se tornou o maior do mundo.

Os blocos afro: quando a negritude tomou a avenida

Em 1974, no bairro da Liberdade, um grupo de jovens negros fundou o Ilê Aiyê com uma proposta revolucionária: um bloco exclusivamente negro, que celebrasse a beleza e a cultura africana. A reação da sociedade conservadora foi de escândalo — o jornal A Tarde chamou o bloco de "bloco do racismo".

Mas o Ilê Aiyê resistiu e abriu caminho para uma revolução. Nos anos seguintes, surgiram o Olodum, o Muzenza, o Malê Debalê e dezenas de outros blocos afro que transformaram o Carnaval em instrumento de consciência racial e orgulho negro.

Afoxés: a raiz sagrada

Antes dos blocos afro, os afoxés já levavam a cultura do candomblé para as ruas. O Filhos de Gandhy, fundado em 1949 por estivadores do porto de Salvador, é o mais famoso — seus membros vestidos de branco e azul, com seus abadás perfumados de alfazema, são uma das imagens mais icônicas do Carnaval.

O Carnaval hoje

O Carnaval de Salvador atrai cerca de 2 milhões de foliões por dia durante os seis dias de festa. São três circuitos principais — Barra-Ondina, Campo Grande e Pelourinho — cada um com sua personalidade.

Mas Roberto Pessoa alerta: por trás da festa, há debates importantes sobre segregação espacial (cordas dos blocos), direitos autorais, ocupação do espaço público e preservação das manifestações tradicionais frente à mercantilização da festa.